Covid-19 explode após reabertura do comércio e obriga Belo Horizonte a retroceder na flexibilização

Os dados desta reportagem foram publicados originalmente no BHAZ em 24/06/2020.

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Amanda Dias/BHAZ

Câmara Municipal já aprovou uso obrigatório de máscaras: multa será de R$ 100



Cristiano Martins

Do Coronavirus-MG.com.br

Rafael D'Oliveira

Do BHAZ

Publicado em 26/06/2020


O prefeito Alexandre Kalil anunciou, nesta sexta-feira (26), a volta das restrições ao comércio não essencial em Belo Horizonte. A medida é uma reação direta à explosão dos casos de Covid-19 a partir do dia 25 de maio, quando começou a retomada gradual das atividades econômicas. “O bombardeio chegou", declarou o chefe do Executivo municipal.


A capital mineira contabilizava 1.444 diagnósticos da doença até o momento da reativação. Foram necessários 70 dias a partir do primeiro contágio para que a cidade atingisse essa marca. Após a flexibilização, o número dobrou em apenas 17 dias e triplicou em outros 11, de acordo com os boletins oficiais da Secretaria de Estado de Saúde (SES).


Especialistas ouvidos pelo BHAZ e pelo Coronavirus-MG.com.br antes da decisão haviam sido unânimes ao alertar que a administração municipal precisava restringir a circulação de pessoas rapidamente, sugerindo inclusive a implementação do chamado lockdown.


A ocupação de leitos chegou a 87% nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e a 71% nos leitos clínicos. “O Samu fazia o transporte de 50 pessoas por dia, e nesta semana passou para 100. Anteontem, teve Centro de Saúde aberto até às 23h30 esperando ambulância para buscar o paciente”, revelou o secretário municipal de Saúde, Jackson Machado.





Outro dado reforça a aceleração do contágio em Belo Horizonte: 19 dos 20 dias com mais casos registrados são posteriores à flexibilização do comércio, considerando tanto as datas de notificação dos sintomas quanto as de confirmação dos diagnósticos. Os recordes aconteceram justamente duas semanas após cada etapa de abertura, tempo médio estimado para que o vírus se manifeste e a infecção seja confirmada.


Seria impossível – e tecnicamente incorreto – atribuir a acentuação da curva inteiramente à reativação da economia. Para os estudiosos consultados pela reportagem, porém, a influência direta da reabertura é inquestionável.


O gráfico de casos acumulados evidencia a mudança da curva após cada onda de flexibilização. A linha verde mostra a tendência considerando os dados registrados até o dia 25 de maio, antes da primeira etapa, enquanto a amarela indica a previsão de aumento observada no dia 8 de junho, quando a prefeitura autorizou a reativação de mais setores.




Conforme a projeção inicial, era esperado que a capital chegasse ao momento atual com cerca de 2.544 casos (entre 1.976 e 3.112, considerando um intervalo de confiança de 95%). No segundo cenário, a tendência já era que o boletim registrasse hoje aproximadamente 4.268 pacientes infectados (entre 3.641 e 4.895).


O número real atingido (4.977) é, portanto, pior do que a previsão mais pessimista há três semanas. Cabe ressaltar que essa é uma estimativa puramente estatística e desconsidera fatores epidemiológicos e mudanças na testagem ou no ritmo de confirmações, entre outros.


O ângulo da curva está cada vez mais íngreme, significa que os casos estão crescendo de maneira acelerada. O vírus está circulando mais e em uma velocidade de transmissão e infecção maior. O contato das pessoas está maior, e isso está sendo refletido. Se a ideia era frear o crescimento, o gráfico mostra que isso não aconteceu”, avaliou o infectologista Leandro Curi.


Para Luiz Henrique Duczmal, professor de estatística da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o momento da reabertura foi inadequado. “Já se observava um aumento no número de casos”, destacou o responsável por um estudo repercutido internacionalmente que mostrava a ineficiência do chamado "isolamento vertical". O pesquisador também previu, em abril, que um relaxamento àquela altura prejudicaria o esforço feito até então para conter o avanço do vírus.


“É preciso reforçar o isolamento o mais rápido possível. Seria a maneira mais efetiva de se fazer isso (lockdown). Caso contrário, podemos ver algo semelhante a Manaus ou Rio de Janeiro, onde a situação saiu completamente do controle”

Ambos estudiosos ponderaram que a acentuação da curva poderia ser influenciada por um aumento no volume de testes realizados, mas essa hipótese foi descartada pelo secretário de Saúde de Belo Horizonte, Jackson Machado, em entrevista coletiva na sexta-feira passada (19).



Isolamento radical


Considerando o aumento na ocupação das UTIs, os especialistas afirmaram que a solução para brecar a aceleração poderia ser o lockdown. “É preciso reforçar o isolamento o mais rápido possível. Seria a maneira mais efetiva. Caso contrário, podemos ver algo semelhante a Manaus ou Rio de Janeiro, onde a situação saiu completamente do controle”, alertou Duczmal.


Amanda Dias/BHAZ

Número de pessoas infectadas mais do que triplicou no último mês



“Em um contexto com déficit de leitos, exames, profissionais da saúde e medicamentos, o isolamento é a opção que se tem. Ainda não temos vacina, imunidade ou fármacos com ação comprovada. É algo preocupante e não vejo melhoras para as próximas semanas”, concluiu Curi.


A possibilidade de "trancar" a capital nunca esteve descartada pela prefeitura. Na entrevista coletiva desta sexta (26), Kalil disse que a população não soube "aproveitar a oportunidade" e pediu desculpas a quem respeitou o distanciamento social.


"Ninguém está mais triste do que eu, e ninguém avisou tanto à população que não eram férias. Não estamos em descontrole, mas podemos chegar próximo ao colapso. A compreensão de que nós estamos em guerra é o que faltou a muita gente. Nunca vi fazer churrasco em guerra”, criticou o prefeito de Belo Horizonte.


"Ninguém está mais triste do que eu, e ninguém avisou tanto à população que não eram férias. A compreensão de que nós estamos em guerra é o que faltou a muita gente. Nunca vi fazer churrasco em guerra”


Mesmo com o evidente crescimento da curva, a Prefeitura de Belo Horizonte havia mantido a segunda onda de flexibilização em vigor para esta semana pois, de acordo com a gestão municipal, a decisão reativara 92% dos empregos na cidade.


Ainda durante a entrevista coletiva desta sexta-feira, Kalil adiantou que irá sancionar o projeto de lei que torna obrigatório o uso de máscaras nos espaços públicos e estabelecimentos comerciais tão logo o texto seja encaminhado pela Câmara Municipal. Multa será de R$ 100.



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