Governo ocultou dados que revelam sobrecarga de até "136%" em regiões menos favorecidas com UTIs

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Pedro Gontijo / Agência Minas

Romeu Zema anunciou nesta semana a liberação de 656 leitos desde fevereiro



Cristiano Martins

Do Coronavirus-MG.com.br

Publicado em 23/05/2020


O governador Romeu Zema foi às redes sociais na última quarta-feira (20) para divulgar a liberação de 656 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em Minas Gerais durante a crise do Coronavírus. Enquanto isso, no mesmo dia, a Secretaria de Saúde publicava em seu site dados que abriam questionamentos sobre a ocupação e a distribuição desses equipamentos pelas regiões do estado. Coincidência ou não, as informações foram apagadas logo após as indagações enviadas pelo Coronavirus-MG.com.br e não voltaram a ser disponibilizadas.


De acordo com os números divulgados oficialmente, Minas Gerais vive uma situação relativamente confortável na gestão da pandemia, em relação a outros estados, com 69% das vagas de UTI ocupadas na rede pública. Por outro lado, os dados apagados pelo governo indicavam uma sobrecarga de entre 100% e “136%” em seis das 14 macrorregiões de saúde.


O Coronavírus-MG.com.br coletou as informações antes de serem ocultadas da página oficial. Elas revelam que quatro das regiões saturadas são as que menos receberam e habilitaram novos leitos desde fevereiro, período utilizado por Zema como referência ao anunciar a expansão da rede assistencial. São elas: Jequitinhonha (Diamantina), Nordeste (Teófilo Otoni), Oeste (Divinópolis) e Triângulo Norte (Uberlândia).


Desde que parou de divulgar o número total de casos notificados e, consequentemente, a testagem de pacientes com sintomas suspeitos, o governo vem se apoiando no percentual de leitos ocupados na rede pública como indicador fundamental na gestão da crise e na reabertura econômica proposta pelo programa Minas Consciente.




Após os questionamentos, a Secretaria de Saúde (SES) alegou que não há casos registrados de pacientes transferidos entre regiões do estado, e que as ocupações superiores a 100% poderiam ser explicadas por atrasos no lançamento de altas médicas ou de leitos já habilitados no sistema SUS Fácil MG, utilizado para calcular as taxas.


Ainda assim, as contas possibilitadas pelas informações retiradas do ar indicam que as regiões sobrecarregadas estariam, sim, à beira da saturação. Considerando os leitos excedentes (não cadastrados) teoricamente ocupados nestas regiões, "sobram" apenas 31 unidades habilitadas sem localização conhecida, ou seja, que poderiam estar distribuídas por todo o estado.


Ainda conforme a SES, a região Triângulo Sul, com polo em Uberaba, possui um cadastro próprio e não lança todos os números no sistema SUS Fácil MG, por isso é desconsiderada no cálculo geral da taxa de ocupação.

O Coronavirus-MG.com.br vem solicitando há algumas semanas os números oficiais de leitos clínicos e de UTI habilitados e cadastrados por microrregião e macrorregião de saúde em Minas, mas ainda não recebeu respostas. Confira a análise detalhada aqui.



Entenda os números


Segundo o anúncio feito pelo perfil de Zema no Twitter, Minas Gerais passou de 2.013 leitos de UTI no sistema público de saúde, em fevereiro, para 2.669 unidades habilitadas até o último dia 20. Destas, 2.555 estão oficialmente cadastradas no SUS Fácil MG, sistema a partir do qual é calculada a taxa de ocupação geral no estado.


Na quarta-feira (20), a SES publicou durante alguns instantes os dados desagregados por macrorregião de saúde. Foi divulgado também o número absoluto de pacientes internados em cada região, possibilitando assim o cálculo da quantidade de leitos cadastrados em cada uma delas, e também dos leitos supostamente habilitados e ocupados nas divisões administrativas que ultrapassavam a capacidade máxima de atendimento.


Os números indicavam ocupações "acima de 100%" nas seguintes regiões: Triângulo Norte (136%), Jequitinhonha (130%), Vale do Aço (112%), Oeste (110%), Nordeste (105%) e Leste (103%). Cinco áreas já registravam 10% ou mais de UTIs ocupadas especificamente com pacientes em tratamento da Covid-19, entre elas Nordeste (15%), Vale do Aço (11%) e Jequitinhonha (10%).


No extremo oposto, somente três regiões registravam menos de 80% de ocupação total: Leste Sul (64%), Norte (63%) e Centro (36%) – a região Central, sozinha, tinha 577 leitos de UTI desocupados, podendo assim, em teoria, receber um volume significativo de pacientes transferidos de outras áreas do estado em caso de necessidade.


A partir dos dados disponíveis no DataSUS, o Coronavirus-MG.com.br calculou também o incremento no total de leitos de UTI em cada região desde fevereiro.


Neste aspecto, chama atenção a situação na região Nordeste. Teófilo Otoni e suas cidades vizinhas não registram nenhum novo leito cadastrado desde fevereiro e, com 15% de ocupação por pacientes com Covid-19, aparece entre as áreas mais saturadas de Minas Gerais.


O Coronavirus-MG.com.br solicitou uma nota da Secretaria de Saúde, bem como os números oficiais detalhados por região, e recebeu a seguinte reposta, às 18h25 desta sexta-feira (22):


"A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais esclarece que, ao publicar as taxas de ocupação na plataforma BI, é possível que algumas regiões apresentem índices acima de 100% uma vez que o extrato dos dados do dia é retirado às 29h59 e as altas dadas pelos médicos costumam ser feitas no período noturno, período em que é comum haver trocas de turno. Até que a alta dada seja efetivamente lançada em sistema, é possível que seja necessário algum tempo, o que pode gerar esse tipo de distorção. De forma geral se considera, contudo, que taxas acima de 90% sejam consideradas como ocupação praticamente total dos leitos. Por essa razão é que se considera o percentual da taxa de ocupação como indicador e não necessariamente o número absoluto de leitos, uma vez que as internações e as altas se dão em caráter dinâmico".


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