Minas chega a 100 mil notificações de Covid-19 com só 10% dos casos testados

Este conteúdo está liberado para reprodução, desde que creditados os autores e o projeto Coronavirus-MG.com.br. Você também pode inserir os gráficos em seu site por meio do código embed ("incorporar"). Os dados são do informe epidemiológico de Minas Gerais e dos boletins das demais Secretarias Estaduais de Saúde.

Funed/Reprodução site oficial

No início de abril, governo firmou parceria para ampliar capacidade de diagnósticos



Cristiano Martins

Do Coronavirus-MG.com.br

Publicado em 05/05/2020 - atualizado às 18h20


Minas Gerais ultrapassou nesta terça-feira (5) a marca das 100 mil notificações de Covid-19. A enorme maioria, porém, segue classificada como "caso suspeito". Com apenas 10,4% de diagnósticos realizados até o momento, o estado opera muito abaixo da capacidade prometida ainda para o início de abril e tem os piores índices de testagem do país, segundo um levantamento realizado pelo Coronavirus-MG.com.br.


De acordo com os últimos números oficiais, Minas registra 100.038 notificações de possíveis contágios pelo novo Coronavírus. Destas, 2.452 estão confirmadas (incluindo 94 mortes), 7.984 foram descartadas e 89.602 aguardam análise.


No dia 31 de março, o governador Romeu Zema havia anunciado em entrevista ao MG1 (TV Globo Minas) que a capacidade estava sendo dobrada, naquele momento, de 200 para 400 testes por dia. E que, já a partir de 3 de abril, esse volume alcançaria os 1.800 diagnósticos diários graças a uma parceria entre a Funed (Fundação Ezequiel Dias) e outros 19 laboratórios particulares e universitários habilitados para o serviço.


A média, no entanto, tem sido de aproximadamente 130 resultados divulgados a cada dia desde então, conforme dados disponíveis nos boletins epidemiológicos e outros canais de comunicação oficiais do estado.




Os números também chamam atenção quando colocados em perspectiva junto aos demais estados. O Coronavirus-MG.com.br consultou os boletins epidemiológicos de todas as Secretarias de Saúde que divulgam o número de testes, segundo o Índice de Transparência da Open Knowledge Brasil. Os últimos dados comparáveis, referentes ao dia 4 de maio, colocam Minas em último lugar tanto na média de testes aplicados a cada 100 mil habitantes quanto na proporção de casos testados sobre o total de notificações.




"Sob controle"


O governo tem reafirmado que a situação está controlada em Minas Gerais. Nesta segunda-feira (4), o secretário de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, chegou a comparar os números do estado aos da Coreia do Sul, exemplo mundial na contenção da pandemia. O país asiático registra 254 mortes, 10.804 casos confirmados e 640.237 testes aplicados: 1.249 a cada 100 mil habitantes.


"Temos um padrão de comportamento e de eficiência semelhante ao da Coreia. Não me parece que estamos mal na condução da Covid-19 em Minas Gerais”, declarou o secretário, ao informar que o número máximo de mortes no estado não chegaria a 200, ainda que somados os 90 óbitos já confirmados e os outros 86 em investigação até aquele momento.


“Mesmo não realizando exames em 100% dos casos notificados, a SES possui mecanismos de controle capazes de avaliar o real cenário da doença. Cada pessoa notificada por síndrome gripal, mesmo sem diagnóstico laboratorial, permite aos técnicos inferir no que está acontecendo”, argumentou Amaral.


Recentemente, em 23 de abril, durante o anúncio do programa Minas Consciente, o governador havia confirmado a capacidade de 1.800 diagnósticos diários, mas dito que a estratégia do estado não será a testagem em massa, mencionando o "momento de dificuldade financeira e o fato de os testes não estarem facilmente disponíveis".


Em 2 de maio, o estado recebeu uma carga de 1,5 milhão de testes rápidos comprados da China para serem distribuídos em órgãos públicos e prefeituras do interior.


Para o infectologista Luiz Wellington Pinto, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (CMMG), o número de testes realizados precisa ser maior. "O ideal é que se pudesse testar mais pessoas, até para ter uma noção melhor de quantos já tiveram contato [com o vírus] e desenvolveram alguma imunidade. Ainda mais, considerando a importância de Minas Gerais e a reabertura econômica que estão querendo fazer", declarou.


"É necessário ter cuidado. Por um lado, valoriza-se demais esse número, perguntando 'será que é só isso mesmo?'. Por outro, não dá para ficar inerte. Está sendo pouco testado, e o ideal seria fazer uma testagem maior", conclui o especialista.



Subnotificação


O Coronavirus-MG.com.br havia pedido alguns esclarecimentos sobre o tema ao governo e recebeu uma resposta às 16h01.


Em nota enviada pela assessoria de comunicação, a Secretaria de Saúde informou que "o percentual de diagnósticos positivos no grupo testado gira em torno de 13,5%, portanto é plausível inferir que, dentro do universo de casos notificados, o número de positivos seja semelhante".


Segundo os balanços, porém, o percentual de casos positivos é de 23,5% de diagnósticos positivos entre os casos testados, e não 13,5%. Em outras palavras, numa projeção como essa, o número real de infectados seria de até 23,5 mil pessoas, quase dez vezes mais que os 2.452 confirmados oficialmente.


O Coronavirus-MG.com.br voltou a solicitar esclarecimentos à SES e aguarda um retorno



Leia as respostas na íntegra:


No dia 31 de março, o governo anunciou que a capacidade de testes seria ampliada para até 1.800 por dia. A média, desde então, tem sido de 130 novos resultados divulgados por dia. Qual a explicação? Ao todo, a rede de laboratórios parceiros tem a capacidade de realizar até 2 mil exames por mês. Contudo, a quantidade de exames realizados por dia é variável, uma vez que depende da quantidade de amostras que chegam aos laboratórios. Minas tem os piores índices de testes sobre o total de notificações (10,2%) e também de testes por 100 mil habitantes (47,8) dentre todos os estados do Brasil nos quais essa comparação é possível. Qual a explicação? Em relação à ocorrência de possíveis subnotificações de casos de Covid-19 no Estado, esclarecemos que a SES-MG possui mecanismos de controle capazes de avaliar o real cenário epidemiológico da doença no estado, mesmo não sendo possível realizar 100% de exames em casos de notificação em uma epidemia. O acompanhamento diário das notificações de casos é um marcador sensível, porque cada pessoa notificada para doença, mesmo sem diagnóstico laboratorial, permite aos técnicos inferir sobre o cenário real. Considerando que o percentual de diagnósticos laboratoriais que são positivos no grupo testado gira em torno de 13,5%, é plausível inferir que dentro do universo de casos notificados, o número de positivos seja semelhante. Outro mecanismo extremamente importante são as notificações de óbitos. Uma vez que a notificação de qualquer óbito é compulsória, é possível compreender a evolução da doença e avaliar a real incidência no estado. O acompanhamento das Síndromes Respiratórias Aguda Grave (SRAG), que também são de notificação compulsória, é outro mecanismo que sinaliza sobre o cenário da Covid-19.

Há alguma orientação oficial sobre as prioridades na aplicação de testes? São testados apenas os óbitos e casos graves, ou os profissionais de saúde, por exemplo? Sobre quem está sendo testado no método PCR, a SES-MG informa que se enquadram em situações com indicação para coleta de amostras e testagem para COVID-19 no momento atual: - Amostras provenientes de unidades sentinelas de Síndrome Gripal (SG) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG); - Todos os casos de SRAG hospitalizados; - Profissionais de saúde sintomáticos (neste caso, se disponível, priorizar Teste Rápido e profissionais da assistência direta); - Todos os óbitos suspeitos; - Por amostragem representativa (mínimo de 10% dos casos ou 3 coletas), nos surtos de SG em locais fechados (ex: asilos, unidades do sistema prisional, hospitais, etc.).


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