O mito do isolamento exemplar em Minas Gerais: índices de mobilidade mostram adesão abaixo da média

O conteúdo desta página está liberado para reprodução, desde que creditados o autor e o projeto Coronavirus-MG.com.br. Os dados são do Google, da Apple, do Waze, do Moovit e da Inloco.

Amanda Dias/BHAZ - 20/05/2020

Redução no trânsito foi de apenas 47%, contra 63% na média nacional



Cristiano Martins

Do Coronavirus-MG.com.br

Publicado em 26/05/2020 - Atualizado em 27/05/2020 às 18h30



A adesão popular ao distanciamento social tem sido um dos argumentos mais utilizados pelas autoridades para justificar a situação relativamente confortável durante a crise do Coronavírus em Belo Horizonte e em Minas Gerais. Essa hipótese, porém, não encontra respaldo em nenhum dos principais indicadores nacionais e internacionais de mobilidade urbana, de acordo com uma análise inédita realizada pelo Coronavirus-MG.com.br.


A partir de informações disponibilizadas por empresas de transporte e telefonia, foram reunidos mais de 30 mil dados contrastáveis entre as unidades federativas e algumas grandes cidades. Em linhas gerais, os números revelam que os mineiros não podem ser apontados como o melhor exemplo no assunto. Pelo contrário: apresentam alguns dos piores resultados em seis de nove comparações interestaduais.


“Isso (número de casos e óbitos) mostra que Minas está de parabéns. Os cidadãos estão conseguindo conservar o isolamento social, e isso vai trazer um benefício para todo o estado”


Carlos Eduardo Amaral, secretário de estado de Saúde, em 16 de abril


Dados de geolocalização do Google mostram, por exemplo, que os mineiros estão entre os que menos abriram mão dos passeios em praças e parques. Já o monitoramento por GPS do aplicativo Waze indica que 53% dos veículos continuaram circulando no estado, numa intensidade sempre acima da média nacional (43%), com destaque para uma diferença considerável nos dias de semana (análises e gráficos detalhados abaixo).



Movimentação registrada em parques é bem superior à média nacional



A situação está sendo acompanhada pelos gestores públicos, principalmente no contexto do programa Minas Consciente e da reabertura progressiva do comércio não-essencial em Belo Horizonte, iniciada nesta segunda-feira (25).


Tanto a prefeitura da capital quanto o governo estadual informaram que não trabalham com metas de distanciamento, mas monitoram os fluxos e, inclusive, adotaram oficialmente um desses índices (Inloco) como "termômetro" do comportamento geral. A recomendação nas duas esferas continua a mesma: a população deve seguir o isolamento e as medidas de prevenção.


Início do isolamento

Os dados de GPS e smartphones indicam uma variação muito pequena entre os estados em relação ao momento da entrada no isolamento. Em geral, percebe-se uma queda na circulação entre a segunda e terceira semanas de março, e o início da quarentena na segunda-feira dia 23/03 (Minas Gerais e Belo Horizonte declararam estado de calamidade pública na sexta-feira imediatamente anterior, dia 20).


Para a médica Cristina Alvim, coordenadora do Comitê de Prevenção e Enfrentamento ao Coronavírus da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), vários fatores devem ser levados em conta nas avaliações comparativas. No caso da capital mineira, ela destaca que o primeiro diagnóstico de Covid-19 havia sido confirmado apenas no dia 16 de março.


"Pode ser que o isolamento tenha acontecido na mesma semana. Mas para nós foi precoce, enquanto para outros, já era tardio. E a gente só soube disso depois, pelos resultados. As medidas em Belo Horizonte foram muito coordenadas, principalmente no fechamento de escolas e universidades, que são algumas das principais fontes (de contágio)", analisa. Ela cita ainda a menor circulação no Aeroporto de Confins e no metrô da capital, em relação a São Paulo e Rio de Janeiro, como outro aspecto favorável ao controle da disseminação.

Para efeito de comparação, a capital paulista já contabilizava 30 mortes causadas pelo novo Coronavírus no dia 23 de março, enquanto a carioca registrava um óbito naquele momento.


As análises consideram o dia 23 de março como início geral da quarentena. Recomenda-se o acesso a partir de um computador ou tablet para uma melhor visualização dos gráficos.



Inloco


A permanência média dos mineiros em casa durante a quarentena foi de 44%, de acordo com a plataforma Inloco, utilizada oficialmente pela prefeitura de Belo Horizonte e pelo governo de Minas Gerais – as informações em nível municipal não são informadas em detalhe.


A Inloco analisa os dados anonimizados dos aparelhos celulares de 3 milhões de pessoas em Minas, garantindo uma amostragem bastante representativa da população (21 milhões).


O indicador mostra o estado na nona pior colocação entre as 27 unidades federativas. Nota-se o relaxamento da quarentena e o deslocamento em relação à média nacional nas últimas três semanas, especialmente nos dias úteis.


*A média nacional foi calculada com os dados dos 27 estados, mas alguns foram excluídos arbitrariamente do gráfico para melhorar a visualização das linhas. A seleção foi mantida em todas as análises.




Google

Os relatórios de mobilidade do Google mostram Minas Gerais menos isolada do que as médias nacionais em todos as categorias.


A movimentação dos mineiros caiu 52% nas atividades de lazer e compras, 34% em parques, 30% em locais de trabalho, 44% no transporte público e 10% em farmácias e mercearias, enquanto a permanência em casa aumentou em 15%.


As informações são baseadas em dados anônimos coletados a partir do Google Maps e outros aplicativos com geolocalização no sistema Android.


*A média nacional foi calculada com os dados dos 27 estados, mas alguns foram excluídos arbitrariamente do gráfico para melhorar a visualização das linhas:




Waze


Segundo os dados de GPS coletados pelo aplicativo de mobilidade Waze, Minas Gerais é o sexto estado com menor redução proporcional no trânsito. No período analisado, 47% dos veículos deixaram de circular no estado, contra uma média nacional de 63%.


Considerando apenas Belo Horizonte, a queda proporcional de circulação nas vias públicas foi bem superior (73%), mas acompanha de perto a média das demais cidades analisadas (74%).


Os dados são fornecidos por meio de uma parceria entre o Waze e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Eles consideram tanto a extensão quanto a duração das retenções nas ruas e avenidas para calcular a intensidade no trânsito.


*A média nacional foi calculada com os dados de 26 estados (não há informações do Mato Grosso do Sul), mas alguns foram excluídos arbitrariamente do gráfico para melhorar a visualização das linhas. Já os dados em nível municipal estão disponíveis apenas para dez capitais.



Apple

Os relatórios de tendências de movimentação produzidos pela Apple estão baseados nas consultas de rotas de trânsito por usuários de iPhones. É neste levantamento que aparece o único indicador positivo para os mineiros dentre todas as 13 comparações realizadas.


Segundo a empresa de tecnologia, os motoristas belo-horizontinos e mineiros solicitaram mais direções em relação ao resto do Brasil. As buscas realizadas pelos pedestres, por outro lado, aparecem ligeiramente abaixo da média nacional.


*Há dados detalhados de 25 estados (à exceção de Acre e Amapá), mas alguns foram excluídos arbitrariamente do gráfico para melhorar a visualização das linhas. Já os dados em nível municipal estão disponíveis apenas para sete capitais.




Moovit


Por fim, segundo o índice Moovit, a região metropolitana de Belo Horizonte apresentou uma das menores reduções na utilização do transporte público, somente atrás de Brasília. A queda foi de 52% durante o período, contra 61% na média geral das metrópoles contabilizadas.


Essa categoria, assim como nos relatórios do Google, deve ser observada com cautela, pois o transporte coletivo provavelmente inclui mais trabalhadores de serviços essenciais que não puderam aderir ao distanciamento social.


*Estão disponíveis os dados detalhados de nove regiões metropolitanas, a partir dos quais foi calculada uma média geral.




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