Risco de morte por Covid é 46% maior entre a população preta em Minas Gerais

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Amanda Dias/BHAZ

Especialistas destacam que negro(a)s são maioria nos serviços considerados essenciais



Cristiano Martins

Do Coronavirus-MG.com.br

Publicado em 10/07/2020

Desde os primeiros casos de Covid-19 no Brasil, especialistas alertam para a desigualdade social e o racismo estrutural como fatores de risco durante a pandemia. Novos dados divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde (SES) e analisados pelo Coronavirus-MG.com.br reforçam essa hipótese ao revelar que a letalidade da doença é 46% maior entre as pessoas declaradas pretas em relação às brancas em Minas Gerais.

Considerando apenas os pacientes com menos de 60 anos de idade, a diferença mais do que dobra, chegando a 119% na comparação entre pretos e brancos contaminados pelo vírus fora desse grupo de risco. Os dados passaram a ser disponibilizados no dia 7 de julho e, apesar de parciais, são os mais completos e detalhados sobre a situação em Minas até o momento.





Para especialistas consultados pela reportagem, é possível que o retrato seja ainda mais desigual. Isso porque a coleta de informações sobre cor ou raça foi ignorada na maioria das notificações, apesar de ser obrigatória: mais precisamente, em 61% dos casos e 22% dos óbitos. Isso se deve basicamente ao não-preenchimento das fichas de atendimento e internaçãohá ainda um atraso na divulgação dos dados detalhados (leia mais abaixo).


"A qualidade do registro tem relação com o serviço de saúde e o nível socioeconômico. Nas regiões de maior vulnerabilidade, a qualidade tende a cair. Nossa hipótese é que a população negra compõe a maior parte desses dados desconhecidos", analisa a doutora Valéria Cristina de Oliveira, pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) e do projeto Termômetro da Crise Covid-19, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).



"A qualidade do registro tem relação com o serviço de saúde e o nível socioeconômico. Nossa hipótese é que a população negra compõe a maior parte dos dados desconhecidos" Valéria Cristina de Oliveira (UFMG)


De acordo com as informações disponíveis, o contágio foi fatal para 111 de 1.347 mineiros pretos diagnosticados com Covid-19 (8,2%). Entre os brancos, foram 8.460 casos confirmados e 476 óbitos (5,6%). Levando em conta apenas os pacientes com menos de 60 anos, 33 de 1.040 pretos morreram (3,2%), enquanto 96 de 6.639 brancos não resistiram à doença (1,4%).


Em relação aos registros totais, os pretos representam 6,5% dos casos e 10,5% das mortes, enquantos os brancos respondem por 40,7% e 45,2%, respectivamente. Se desconsiderado o grupo de risco composto pelas pessoas idosas, a desigualdade também é maior: a população preta aparece em apenas 6% dos testes positivos, mas 13% dos óbitos. Os brancos, por sua vez, são 40% dos contaminados e 36% das vítimas.





A classificação é baseada na autodeclaração, segundo o padrão de raça adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), isto é: branca, preta, amarela, parda ou indígena. O conjunto de pretos e pardos responde pelo conceito mais abrangente de população negra – segundo o órgão, 75% dos 13,5 milhões de brasileiros vivendo em extrema pobreza são negros, ou seja, pessoas declaradas pardas ou pretas.


Considerando esse conceito mais amplo, os registros da Covid-19 em Minas Gerais revelam que a população negra representa 48,7% dos casos confirmados e 53,6% das mortes no estado. Entre as pessoas com menos de 60 anos de idade, os mineiros negros são 48,8% dos infectados e 61,4% das vítimas.





"A população negra é maioria nos serviços essenciais, nas funções de atendimento, limpeza e segurança, por exemplo. Está mais exposta do ponto de vista social, no transporte público e nas ocupações que não permitem o trabalho remoto" Valéria Cristina de Oliveira (UFMG)


Entenda os números


Os dados são provenientes do Sistema de Notificação de Síndrome Gripal (e-SUS VE) e do Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep)ambos gerenciados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além de exames realizados em laboratórios públicos e privados do estado e dos chamados "testes rápidos" aplicados em farmácias ou empresas.


Como mencionado anteriormente, a informação sobre cor e raça não foi coletada em 61% dos casos e não está presente em 22% dos registros de óbitos em Minas, apesar de ser obrigatória.


Além disso, há ainda um atraso na divulgação dos dados detalhados por paciente. A Secretaria de Estado de Saúde (SES) já confirmou oficialmente 70.086 casos e 1.504 óbitos em Minas Gerais, mas o banco de dados atualizado até o dia 8 de julho apresentava apenas 53.701 registros e 1.355 vítimas.


Sobre essa defasagem, a SES informa que "o tempo de entrada de informações nos sistemas oficiais tem uma demora compatível com o processo de vigilância epidemiológica, além de uma subnotificação dos casos por parte dos municípios".


Amanda Dias/BHAZ

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Registro é obrigatório


A necessidade da declaração de raça ou cor nos registros de saúde foi estabelecida na Política Nacional de Saúde Integral da População Negra ainda no governo Lula (maio de 2009) e tornou-se obrigatória a partir de uma portaria editada pelo Ministério da Saúde durante o governo Michel Temer (fevereiro de 2017). Mesmo assim, a questão ainda tem sido ignorada na maioria das notificações durante a pior crise sanitária já vivida no país.


Em nível federal, os dados só foram incluídos pelo Ministério da Saúde nos sitemas e-SUS VE e Sivep-Gripe no dia 10 de abril, em resposta a demandas apresentadas pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) e organizações de defesa dos direitos da população negra.


Em nível estadual, 11 unidades federativas ainda não divulgam essa informação, de acordo com o Índice de Transparência da Open Knowledge Brasil (Amapá, Bahia, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Pará, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Roraima e Tocantins).


Coindicência ou não, o Governo de Minas Gerais passou a disponibilizar os dados detalhados apenas no último dia 7 de julho, após a organização ter indicado que passaria a incluir este critério na avaliação – os boletins epidemiológicos publicados diariamente pela Secretaria de Estado de Sáude (SES) trazem os números resumidos desde o dia 26 de junho.


A divulgação desses dados em Minas foi determinada após uma proposição apresentada pelas deputadas estaduais Andréia de Jesus (Psol), Leninha (PT) e Ana Paula Siqueira (Rede). O artigo foi aprovado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais e promulgado pelo governador Romeu Zema (Novo) no dia 19 de junho.


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Segundo os especialistas, ativistas e legisladores, esses dados são fundamentais para o entendimento sobre a desigualdade social, o desequilibrio no acesso à saúde e a evolução da pandemia entre as parcelas mais vulneráveis da população.


O fenômeno não é uma exclusividade do Brasil. O jornal New York Times analisou dados de 640 mil pessoas contaminadas nos Estados Unidos e concluiu que negros e latinos apresentam três vezes mais chances de serem infectados e um risco quase duas vezes maior de morrer pela doença em relação à população branca no país norte-americano.


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