Um terço das cidades com suspeitas de Covid-19 não tem nenhum caso testado

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Pedro Gontijo/Agência Minas

Média diária aumentou de 130 para 406 exames após levantamento do Coronavirus-MG.com.br



Cristiano Martins e Ígor Passarini

Do Coronavirus-MG.com.br

Publicado em 11/05/2020


Minas Gerais ultrapassou nesta segunda-feira (11) a marca dos 100 mil casos suspeitos de Covid-19 não testados em laboratório. De acordo com os dados oficiais da Secretaria de Estado de Saúde (SES), 88,6% dos pacientes com algum sintoma da doença não foram submetidos a exames para comprovar ou descartar o contágio pelo novo Coronavírus.


Segundo um novo levantamento realizado pelo Coronavirus-MG.com.br, uma a cada três das 840 cidades com notificações registradas até o momento ainda não testou ou não recebeu o resultado de nenhum caso sequer. São 277 municípios, nos quais se acumulam 2.707 pacientes nesta situação.


Quatro dessas cidades já possuem mais de 50 casos não testados. Salinas, no Norte de Minas, apresenta o pior quadro, com 86 pacientes à espera de exames. Na sequência aparecem Sabinópolis (85), Barão de Cocais (53) e Francisco Sá (51).


Em seis municípios, a fila já passa dos 2 mil casos. Apenas em Belo Horizonte, já são 33.854 notificações à espera de exames. Uberlândia, Contagem, Betim, Ipatinga e Montes Claros completam a lista. Veja os detalhes no mapa abaixo ou consulte a tabela completa.




Apenas 13 dos 853 municípios mineiros não tiveram nenhum caso notificado até agora: Cordislândia, Itaipé, Novorizonte, Oliveira Fortes, Paulistas, Pedro Teixeira, Ponto Chique, Pratinha, Santo Antônio do Rio Abaixo, São Sebastião do Rio Preto, Serranópolis de Minas, Tapiraí e Umburatiba. Juntos, eles reúnem pouco mais de 50 mil habitantes, ou seja, apenas 0,2% da população total do estado.


Quando analisadas as situações agregadas por mesorregião, percebe-se que o Norte de Minas concentra os piores números, com apenas 4,7% dos pacientes testados. No outro extremo está o Vale do Rio do Doce, com 19% de exames realizados, ou aproximadamente um a cada cinco pessoas atendidas com algum sintoma da Covid-19.




De acordo com os últimos dados oficiais, atualizados nesta segunda-feira (11), já foram notificados exatamente 113.454 casos suspeitos de Covid-19 em Minas Gerais. Somente 12.968 passaram por exames laboratoriais, o que representa 11,4% do total. Destes, 3.320 tiveram o diagnóstico confirmado (incluindo 121 mortes), e os outros 9.648 foram descartados.


Houve um aumento considerável na divulgação de testes realizados a partir de 5 de maio, quando o Coronavirus-MG.com.br revelou que Minas Gerais apresentava os piores índices do país entre os estados nos quais essa comparação era possível. Desde então, a média subiu de 130 para 406 novos resultados por dia. O número, contudo, segue muito abaixo da capacidade de 1.800 exames diários prometida pelo governador Romeu Zema para o início de abril.




Na quinta-feira da semana passada (7), Zema foi às redes sociais para tentar minimizar os números, argumentando que "nenhum estado testa assintomáticos". A própria Secretaria de Saúde, contudo, classifica um caso suspeito como "todo indivíduo com quadro respiratório agudo, notificado pelo serviço de saúde com suspeita de infecção humana pelo Sars-Cov-2: doença pelo Coronavírus Covid-19".


Um estudo publicado neste domingo (10) pelo Comitê Permanente de Enfrentamento do Novo Coronavírus da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) cita a "baixíssima cobertura de testes" como um argumento contra a flexibilização do isolamento social no estado.


Mesmo que os casos não testados sejam os mais leves, como argumenta o governo, é sabido que pacientes assintomáticos também transmitem o vírus.


"Estudo do Imperial College, renomada instituição do Reino Unido, estima que cada brasileiro com COVID-19 infecte de 2 a 3 outros. Dados da Fiocruz mostram que estamos em regime de duplicação do número de casos a cada 5 dias. Esses dados demostram que, no estágio atual da pandemia, o Brasil está na fase do crescimento exponencial", destacam os pesquisadores.


Entenda:

09/04 - Após um mês, 82% das cidades com notificações continuam sem resultados de testes 05/05 - Minas chega a 100 mil notificações de Covid-19 com só 10% dos casos testados

07/05 - Zema contradiz dados oficiais ao tentar desmentir baixa testagem em Minas


Números oficiais


Em coletiva no início da tarde desta segunda-feira (11), o secretário de Saúde, Carlos Eduardo Amaral defendeu o distanciamento social e alegou dificuldades logísticas e econômicas para ampliar a testagem, mas voltou a citar números diferentes dos oficiais quando questionado sobre o assunto.


"Nós temos na média em torno de 4,5% dos casos positivos. Na última avaliação semanal, tínhamos em torno de 6,5% de casos positivos. Então, de uma forma geral, se nós transformarmos isso no todo, vamos ter uma noção de quantos casos teríamos no estado, no máximo. É importante lembrar que esses exames nós fazemos nos casos mais graves e que tendem a dar um percentual de positividade bem maior do que o todo notificado", declarou.


De acordo com os balanços divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde, os casos positivos representam 2,9% do total de notificações e 25,6% dos testes realizados. Em uma projeção como esta, haveria até 28,3 mil pessoas infectadas no estado, ou seja, quase nove vezes mais que os 3.320 diagnosticados oficialmente.


O Coronavirus-MG.com.br já havia pedido esclarecimentos sobre esse tema ao governo no dia 7 de maio, mas não recebeu resposta. Em nova consulta realizada nesta segunda-feira (11), a assessoria da SES alegou que, na verdade, já teriam sido realizados 28.783 testes, sendo 14.429 exames processados pela Funed (Fundação Ezequiel Dias) e laboratórios parceiros, mais 14.354 realizados por laboratórios particulares.


A nota, no entanto, não informa os resultados desses exames excedentes e nem explica o motivo da diferença em relação aos 12.968 resultados divulgados oficialmente até o momento nos boletins da própria secretaria, entre casos confirmados e descartados.


Leia a nota na íntegra:


O percentual em questão tem relação apenas com o quantitativo de amostras analisadas pela Funed e laboratórios por ela coordenados no âmbito da rede de saúde. Uma vez que, à exceção dos exames feitos em profissionais de saúde, as amostras são coletadas em pacientes que apresentam quadro clínico com indicação para testagem, temos um percentual que, no momento, se encontra na casa de 4,5% dentro desse grupo. De forma geral, se forem transportados esses percentuais para o número de casos notificados, é possível obter uma projeção de quantos casos haveria no máximo. Cabe ressaltar, ainda que, os testes são feitos em pacientes com quadro mais graves e que tendem, por outro lado, ter um grau de positividade bem maior que o número total do que os casos notificados. O cálculo foi feito levando em conta apenas os exames de procedência de laboratórios públicos. Segundo os últimos dados disponíveis, foram analisados 14.429 exames processados pela Funed e seus laboratórios parceiros, sendo 650 resultados detectáveis para a Covid-19. Com relação ao processamento dos exames em laboratórios particulares, temos, até o momento, 14.354 exames realizados, dos quais 1.018 foram positivos. O quantitativo oriundo de laboratórios privados não foi considerado para realização do cálculo, uma vez que fatores socioeconômicos podem determinar não só o acesso aos testes em laboratórios privados, mas também indicar um perfil mais homogêneo de pessoas. Vale ressaltar que, esses dados são equivalentes apenas ao exame por RT-PCR. A confirmação dos casos suspeitos leva também em consideração outros critérios como exame sorológico e fechamento de caso por critério clínico-epidemiológico.

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